Pau de Virar Tripa de Onça Viva

Pau de Virar Tripa de Onça Viva Meu amigo Liu foi passear lá pras bandas do rio Coluene, numa região do Matogrosso onde as onças foram encantoadas pela civilização. O lugar é medonho, cheio de furnas e matas, conservando selvas virgens de botas profanadoras de mato...

Meu amigo Liu foi passear lá pras bandas do rio Coluene, numa região do Matogrosso onde as onças foram encantoadas pela civilização. O lugar é medonho, cheio de furnas e matas, conservando selvas virgens de botas profanadoras de mato. Os caçadores que antes infestavam o Brasil de ponta a ponta foram extintos pelas leis de preservação da natureza e agora é raro encontrar alguém assumidamente caçador de bichos.  Matar qualquer animal selvagem virou sinônimo de selvageria, de anti-cultura, de atraso de vida, portador de tudo quanto é coisa ruim. O sujeito quando mata até um pernilongo fora da época prevista para caçar o insetinho pentelho, esconde-se feito criminoso procurado. Matar animais vertebrados, como pacas, tatus, veados, antas, sucuris, jacarés, onças, capivaras então é palavrão feio que se dito em lugares públicos o cabra corre risco de ser preso, ou pior... linchado!

 

Por isso tem fazendeiro preferindo plantar um pouco mais de roças apenas para descontar o prejuízo dado por patos em bandos de escurecer a lavoura bicando cachos, manadas de capivara pastando até no mesmo eito de capina, onça pegando bezerro no terreiro a enfrentar os xiitas verdes do asfalto. Tem ONG com pompa em cartazes e publicidade de mídia abundante, mas nunca viram um rastro de onça, ao vivo ou uma sucuri na refeição duma novilha. A fazenda dos tios do Liu, no município de Água Boa, no Mato Grosso tem mais de oitocentos alqueirões, com setenta por cento de mata braba, margeando o rio Coluene, até encostar no rio Couto Magalhães. O latifúndio é grande a ponto de parte das terras invadir o estrangeiro. Até índio da região tem medo dalguns lugares dominados por onças pintadas vadiando do Brasil para a Bolívia e vice-versa sem passaporte ou importunação de alfândega.

 

O primo dele, o Jaguaribe, é um caboclinho acostumado a montar burro brabo, amansar cavalo cheio de manhas, por mulas bardosas na linha, mas não é afeito ao contato com onças. Gosta muito de carne de capivara, mas caçar mesmo, nem pensar, alegando ser crime, ser perigoso e ainda tem as tais onças, vez por outra levando pro bucho algum desprevenido. Na fazenda é comum a explicação dada pra gente sumida do mapa: a onça comeu. No ano passado o Liu foi lá passear e estava assanhado pra pescar. Caçar ele não é chegado... tem medo da polícia. Foram p’rum lugar do Coluene onde é aguada do gado, mas muito bom para pescar matrinchãs. Havia apenas um problema não conhecido dos dois: lá era ponto de espera duma pintada grande, gorda e folgada. Pegava boi até de dia nos pastos marginais do rio.

 

Estavam pescando, ali por volta das três horas da tarde, quando a pintada apareceu do lado de lá do rio, distante uns duzentos metros. A bicha pulou n'água vindo para o lado dos pescadores. Os dois trataram de ensebar as canelas na fuga para o carro deixado há uns quarenta metros no meio do pasto. Quando chegaram lá descobriram que a chave havia ficado nas coisas abandonadas no barranco e Liu subiu em cima do teto do fusca, mas Jaguaribe preferiu correr para o meio do pasto, na esperança de driblar a onça enquanto ela ficava entretida comendo o primo. Coitado! A onça vendo o Liu em cima do carro deve ter pensado que o bicho era aquilo tudo, carro e Liu e desistiu dele por estar com pouca fome, resolveu caçar o outro, um almoço rebelde. Saiu pulando moita de capim e em menos de sete saltos o alcançou. O infeliz deu azar de encontrar um barranco terrível, sem condições de saltar, de romper para quaisquer lados. Ficou encurralado pela onça e teve de encarar a mutreca de mãos limpas.

 

Aí arranjou coragem emprestada até com parentes desconhecidos e encarou a onça no tapa. Para sua sorte lembrou-se duma técnica antiga de seus ancestrais manuseando uma vara de virar tripa. A onça era comprida, perto dele estava jogado um cabo de foice, guatambu sarado e o pegou disposto a enfiar pela boca da onça. A bruta vinha de boca escancarada no salto para devorá-lo. Não deu outra, de fato a onça vendo a presa sem meios para fugir simplesmente pulou em cima com aquele bueiro do caramunhão pronto a engoli-lo para as profundas do inferno da onça. Ele não teve dúvidas, fez promessas para tudo quanto era santo, até praqueles caçados pelo vaticano e apontou a borduna. O cabo de foice entrou boca a fora indo até o rabo enquanto a ponta segura pelo braço dele espetou no barranco. Sorte sua porque não tinha tanta força para suportar o impacto da fera, mas não viu isto no momento e segurou firme a pancada da bagual, pensando ter virado super-caçador-de-onça.

 

Vendo que tinha chances na luta puxou o guatambu, para dar umas cacetadas na cabeça da pintada, mas havia umas saliências na ponta do pau e engastou por dentro do rabo da onça e voltou no sopapo de seu muque trazendo a buchada da fera. Para seu espanto a onça devia ser parente de sapo, porque virou do avesso no pau de virar tripa. Dentro da danada era tudo pintadinho de preto e amarelo, tal como o couro da bruta. Aí ficou fera e começou a gritar pelo parceiro corrido de onça, parente almofadinha de cidade, correndo duma oncinha daquela. Liu havia conseguido quebrar o pára-brisa do carro na emergência e veio correndo com um facão mateiro e ao se aproximar do primo ficou banzeiro vendo a onça do avesso. Jaguaribe não se fez de rogado e foi tranquilamente para o lado dele dizendo que oncinha como aquela ali, nas terras do seu pai eles não matavam no tiro, mas sim viravam do avesso, no pau de virar tripa. Inclusive havia deixado aquele ali da ultima vez que tinha avessado uma onça-tigre no inverno passado. Cheio de marra pegou o facão e cortou as ancas da onça. Ia levar aquele pedaço, assar e dar pros cachorros pra ficarem afiados em caçada de onça.

 

Meu amigo Liu tremia dos pés à cabeça e estava apavorado com a mosquitada querendo invadi-lo pela retaguarda. Os dois voltaram para a pescaria, mas desta feita por medidas de segurança com algum fiscal do IBAMA embarcado pelo rio, foram embora mais cedo. É! E se acaso você duvida, é só conferir com meu amigo Liu, cabeleireiro do Conjunto Cruzeiro do Sul na Av. São João, no salão do Liu. Aproveite pra cortar o cabelo ou fazer a barba com ele. Vai escutar histórias de arrepiar até os cabelos caídos no chão do salão. Nem eu, contador de causos, calejado de mentira, acredito sem esforçar.

 

Pois é!

 

 

 

Aparecida de Goiânia, GO, 17JAN12

 

Delegado Euripedes III

 

Ouça na Radio Aliança, 1090 AM, às seis da manhã o quadro Delegacia de Contos, com causos como estes e outros de arrepiar.

 

BREVE CURRÍCULO

 

EURIPEDES DA SILVA – nascido em Colômbia-SP no ano de 1950. Casado com Lourdes C Silva, tendo quatro filhos adultos e dois netos. Colou grau em 1.979, em direito pela UFG. Ingressou na Polícia Militar em 1.972, se graduando sargento onde permaneceu por cinco anos. Aprovado para del. de pol., na Polícia Civil de Goiás, em 83. Como delegado de polícia de carreira, atuou nas cidades de Itumbiara, Goiatuba e Goiânia, Publicou o romance policial AR-15 - A NOVA LEI com o pseudônimo Delegado Euripedes III – Se encontra no prelo Embosca – a política a serviço do crime e Macumba - o terreiro da morte. CONTATOS telefone 62 284 72 87 e-mail Veja na TV Goiânia-canal 11, sábados, 09,30 h o quadro Delegacia de Contos no Programa SEGURANÇA EM AÇÀO. Ouça na Rádio Mil FM (1.029FM) as 07 h 3ª e 6ª feira Delegacia de Contos, no PROGRAMA RONDA POLICIAL.

 

Contato fones 3284-7287

 

correio eletrônico: euripedes3@ig.com. br



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