Os Rios da Cidade

Os Rios da Cidade Os rios de Goiânia continuam correndo na memória de mim, e eu os vejo sempre....

Os rios de Goiânia continuam correndo na memória de mim, e eu os vejo sempre, com suas águas límpidas, viveiro de lambaris, traíras, piaus e bagres, mesmo agora em que tenho os olhos embaçados na fumaça dos automóveis e o asfalto deitando sobre o meu chão telúrico de ontem. Meia-ponte, Capim-Puba, Botafogo, Cascavel, Anicuns e João Leite, até quando? Sei que haviam matas circundando os meus rios e, por essas matas, as brincadeiras de menino - saltando de cipó em cipó, como nos filmes de Tarzan. Sei que haviam as matas do Anicuns. A gente saía da Praça Joaquim Lúcio, cortava o Cascavel, o "Regão dos Padres", passava defronte do Seminário e andava, andava, depois descia, naquela estradinha calçada por pés descalços e, lá embaixo, por entre densas matas, corria o piscoso Anicuns, com suas gameleiras e pau-d'óleo.

Éramos um bando de meninos desocupados e despreocupados, e o rio era o nosso divertimento o dia todo, nele jogávamos o nosso corpo pelado e o tempo corria por trás de um relógio inexistente. A algazarra e o vozerio davam socos na parede das horas, despertando-nos para as disputas naquele campeonato de gozo e ritual de mãos aceleradas, com o olhar sempre fixo, distante, numa hipotética imagem libidinosa.

Ganhei! Gritava um afoito menino, desacelerando os reatores de sua máquina verticalizada. Cadê a mata que estava aqui? O homem comeu!

Os rios continuam correndo na retina daqueles que chegaram primeiro, num tempo em que a felicidade se permutava nas esquinas e nos botecos. Mesmo com o lenço branco (do adeus?) tapando nossas narinas diante do enterro de suas águas pútridas, podemos ainda fechar os olhos por alguns instantes e imaginar que um dia banhamos e reinamos na bacia desse santuário de águas encachoeiradas na memória. E rememorando, vemos surgir, novamente, as matas, os animais, e a Goiânia pequenina, vaidosa, com seus prédios suntuosos, o Palácio das Esmeraldas, o Lyceu, o Grande Hotel, e as autoridades e pioneiros austeros, orgulhosos de serem construtores de futuros.

Campineiro, habitante da saudosa Chacrinha, eu sou apenas uma alma penada a recordar um tempo que ficou amarrado nas patas do lobisomem, da mula sem cabeça e outros bichos que corriam à solta pela minha imaginação. Hoje, os meus rios têm os mesmos nomes e correm nas mesmas estradas. Alguns se marginalizaram em "marginais" - Marginal Botafogo, Marginal Cascavel -, os demais, inofensivos e cônscios de sua fatalidade, vão conduzindo no lombo os dejetos de uma urbe civilizada. Apenas um rio se salvou - o João Leite -, que amamenta a cidade com sua mamadeira explorada nas torneiras das contas incontáveis.

Os rios são "seres humanos, têm um ciclo de vida, e consequentemente uma história", no dizer de Lysias Rodrigues e, por isso, eu viajo sempre com eles nessa correnteza do passado.


* Crônica publicada no livro “Crônicas da Campininha 3ª edição” , de José Mendonça Teles.

José Mendonça Teles, nascido em 25 de Março de 1936 é  historiador, contista, cronista, poeta, ensaísta e autor de mais de 30 obras. Foi presidente da Academia Goiana de Letras, durante 10 anos, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás de 1992 a 2005, e ex-diretor geral do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central, da Sociedade Goiana de Cultura. Entre as condecorações, recebeu as Medalhas João Ribeiro e Assis Chateaubriand, da Academia Brasileira de Letras e Medalha Tiradentes, do Governo de Goiás.



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