Onça é Onça Uai

Onça é Onça Uai Mês passado fui conhecer a fazenda do Wellington, um amigo de longa data, profissional competente dos meios de comunicação. Já fazia algum tempo de marcação do passeio, mas sempre era adiado por um compromisso dele ou meu, mas finalmente deu certo...

ONÇA É ONÇA UAI

 

Mês passado fui conhecer a fazenda do Wellington, um amigo de longa data, profissional competente dos meios de comunicação. Já fazia algum tempo de marcação do passeio, mas sempre era adiado por um compromisso dele ou meu, mas finalmente deu certo. As informações eram de ser um sítio para os lados da cidade de Hidrolândia e Aragoiânia, no pontal formado pelos rios Dourados e Caichoeirinha. Saímos depois do almoço e durante a viagem ele, fazendeiro com rompantes de coronel cacaueiro, se ajuntou com dois auxiliares o Elvis e o Nem falando sobre umas onças enfurnadas nas matas daqueles rios. O primeiro é pintor, eletricista, pedreiro e tudo a respeito de construção, enquanto o outro é cozinheiro dos bons, além de violeiro de arrasar. Andamos numa rodovia estadual uns quarenta minutos até encontrar uma estradinha de terra serpenteando pelo cerrado virgem, descendo cada vez mais e entrando num mataréu dos trezentos. Nem parecia ser tão próximo da capital, tal o isolamento da região. O lugar é cheio de furnas, bibocas, mato e serras. Chegamos à propriedade e vi o quanto o lugar é lindo, com uma vista das mais privilegiadas dentro dum vale. Da sede era possível escutar o cachoeirar do rio Dourados e avistar a conformação geográfica da calha dele vindo lá das serras. Virando ao poente avistei a parte da mata mais grossa, nas margens do Cachoeirinha. 

 

O meu anfitrião falava como presunçoso desbravador, dumas onças canguçus, pintadas e pretas devorando reses e bois. Não havia notícias sobre gente comida por onças, mas isto não era de duvidar, em vista do ermo de mato. Olhei os pastos e vi umas novilhas pastando mansamente denotando que as onças não deviam ser tão brabas assim. Pouco depois apareceu Sô Antonio um dos moradores das redondezas acompanhado de quatro cachorros, farejadores de batidas, cheirando o quintal pr’aqui, pr’ali e pr’colá, fuçando rastros e descobri um deles examinando minha batida, sestrosos com algum bicho novo no pedaço. Fiquei esperto com o purguento poderia cismar comigo e querer caçar-me. O sertanejo visitante confirmou a história das onças alinhavadas por meu amigo antigo e confirmada pelos novos conhecidos. Velhaquei na desconfiança com aqueles novos amigos, pareciam contar lorotas de assombrar capiau de cidade. Nisto manifestei o desejo de ir lá à margem molhada dos rios e conhecer a foz do Cachoeirinha caindo no Dourados. Falaram das onças e do cuidado para não virar almoço delas. Desci com o Elvis indo ele, tomar banho nas águas geladas do Cachoeirinha enquanto eu exploraria os limites da propriedade. Subi margeando o riacho observando os muitos poços remansados com jeito para piaus e fui grimpando o tope, viajei à pé mais de hora a montante até chegar numas cercas novas à beira da mata, coisa rala incompatível com morada de onça. Assuntei os sons da floresta, botei o nariz na largueza para sentir o aroma gostoso do verde e pesquisar cheiro d'alguma pintada. O mormaço da tarde espargia odor de capim secando e a passarada de campo moía cantos de crepúsculo. Não pressenti perigo. 

 

Depois resolvi ver o encontro das águas dos rios. Duas horas de caminhada e cheguei ao delta deles, fiquei de alma embriagada ao ver o quanto é bonito o encontro dos rios preservados. As águas encaracolavam no lombo das corredeiras fazendo um véu anelado de espumados brancos diferentes. O barulho do Dourados, cheio de cascatas contrastava com a mansidão do seu tributário e os dois engrossados iam em direção duma garganta medianeira do vale, dividindo a montanha num enorme cânion esverdeado. Fiquei banzeirando na calmaria da tarde, mourejando o tempo, lavrando pensamentos bucólicos com as águas cristalinas, por um par de horas de olhares perdidos no estuário até lá na curva, uns trezentos metros, onde os dois rios irmanados embrenham na floresta de cerrado indo para o lado onde meus amigos diziam esconder as onças mais ariscas e maiores. Espreitei com ouvido de caçador querendo escutar o esturrar das feras, mas não tive resposta adequada, deviam estar na sesta do dia, ou presas na imaginação deles. Voltei bandeirantemente por trilhas pouco usadas margeando o Dourados e depois de calcular mal e mal o azimute da sede subi a crista da mata ciliar cheia de pedras escoradas no tempo e em muitas árvores de cascas grossas, tortas e pelada no fogo. A subida íngreme foi estafante, mas consegui grimpar o platô saindo num pasto vedado com capim de meia vida em razão da estação das secas. A altura da relva roçava-me as coxas estalando no tacão da bota. Havia muitas vacas pastando e olhavam-me espantadas com o inusitado passante. 

 

Estava sempre atento para as possibilidades de rastros das onças, ou o ariscar d'alguma rês recém parida, mas nada encontrei perigando minha jornada e cheguei à sede quando já se preparavam para uma diligência de resgate, imaginando-me ter encontrado alguma fera e houvesse sido vencido como almoço. O sol morria no horizonte crepuscular próximo, aureolando d’ouro a crista da serra. A fralda dela chegava aos limites da casa, escorando o terreiro com seixos rolados na paciência dos tempos. Ali o dia crepusculeja mais cedo, talvez quase uma hora antes em razão das montanhas circundantes. O frio da serra envolve a gente como se soprasse centenas de aparelhos de ar condicionado expulsando o calor vespertino. Havia um churrasco de panela pronto e com tanto esforço de subir, descer, andar no mato, pensar em onça, me refestelei. Realmente o Nem, sabe cozinhar e para não ficar somente naquele petisco resolveu fazer um tal de tererê. Arroz feito nos restos do churrasco capaz de fazer o sujeito comer como se fosse padre em dia bamburrado de dízimo. Matutei com meus botões de explorador dos campos de caça, comecei a duvidar das histórias do anfitrião sobre onças, enquanto batiam o pé confirmando a existência delas e que me cuidasse melhor, se resolvesse repetir o passeio. A hora de minha investida no mato era imprópria para vadiaçao de onças. Viemos embora com eles contando histórias das bichanas perigosas. Chegamos por volta de vinte e duas horas, tomei um bom banho e fui dormir. Madornei inquieto pela madrugada, aperreado com uma pintada daquelas mutreconas querendo-me para o jantar. A unha da fera fincava-me na perna e já me dava por comido, quando providencialmente acordei. Como o instinto nos salva de muitos perigos, levei a mão na perna comida pela onça confirmando-a presente, deixando-me em sobressaltos. Porém tive um susto danado. 

 

Bem na curva do joelho encontrei a fera atarracada e não tive meios de arrancá-la. Estava bem especada de senhorio em bivaque de invasor. Era uma coceira dos diabos e aquele caroço, como se fosse uma ventosa, não soltava de jeito nenhum. Acendi a luz e fui explorar melhor a onça me devorando e vi um rodoleiro do tamanho dum grão de fava, daqueles graúdos. Peguei uma lente de examinar vestígios de crime e olhei melhor: a fera havia bivacado, assenhoreando dum pedaço razoável da perna. Seus tentáculos, muitos, foram cravados em toda a extensão de seu interesse esbulhador e bem no meio da fortificação engrenava um canudo couro-a-dentro para sugar-me. Peguei o monstro pela barriga, barriga mesmo, porque parece que aquele parasita só tem isto e puxei com força até quase arrebentar, mas não saiu. A força trazia minha pele junto, parecendo puxar borracha e doía mais que coçava. O reboliço da luta com aquela onça da fazenda de meu amigo ia num furdunço danado comigo perdendo os combates iniciais, quando minha esposa veio de aliada de guerra reforçar meu lado. Acordou de vez e quis saber por que o empenho do embate. Mostrei-lhe o inimigo alojado em minhas linhas de defesa fornicando uma invasão, seu bivaque demarcado com uma mancha rocha em volta de seus domínios assombrava. Ela resolveu se equipar com apetrechos bélicos adequados para desalojar o biltre. 

 

Buscou em suas coisas de mulher prevenida, um alicate de unha, umas espátulas de desencravar cutículas, agulha de cozer, álcool em gel e liquido uns chumaços de algodão e gazes. Enquanto isto, me defendia daquele ataque com uma binga. Liguei o fogo e cheguei na bunda do inimigo, mas quando aproximava a chama ele fugia de lado e o fogo ameaçava empolar-me a pele. Apagava na dor, mas a reacendia, começando tudo de novo. Aquela operação não daria certo porque corria o risco duma guerra de Piffo: se conseguisse incendiar o inimigo seria atingido de tal forma a devastar boa parte da perna fazendo bolhas de queimadura. Abandonei a tática e tive de humildemente contabilizar um a zero pró-carrapato. Dona Lourdes estava preparada para a recarga contra o beligerante e apresentou uma faca, desinfetada, afiada e o perigo me pareceu iminente. Ela é nativa lá do nordeste, onde tem muita gente mal inclinada com este tipo de arma branca. As mulheres nordestinas costumam fazer justiça com as próprias mãos quando pegam seus homens em prevaricação marital, capando-os de forma rasa, deixando o infeliz órfão de documentos viris, melhor não arriscar. Nunca se sabe sobre as fofocas das amigas, alguma fala atravessada podia prejudicar minha saúde viril. Tanto é verdade que procuro não irritá-la quando está de posse deste instrumento cortante. Olhei sestroso, a mão dela e depois o carrapato, avaliei os dois perigos e tive de tomar uma decisão sobre qual deles seria de menor gravame: ficaria com o carrapato, mas ela olhou-me atravessado e mudei de idéia no mesmo minuto. Começou o ataque ao inimigo encarapitado na minha perna. Com a lupa acompanhei a luta dela contra o hospedeiro indesejado. 

 

Havia mais de uma dezena daqueles tentáculos fincados profundamente na derme, epiderme, hipoderme e mais além. Com habilidade ela foi desalojando perna por perna daqueles grampos de ataque grudados na carne até que finalmente arrancou o último. Puxou o agressor e ele saiu com facilidade, colocando-o de lado, em cima da cama enquanto cuidava de higienizar a cratera onde o atacante fornicou. Quando olhei para conferir direito, o invasor, cabra safado, o vi se arrastando apressado a quase um metro do campo de guerra, buscando uma trincheira do lençol. O agarrei imobilizando-o num chumaço de algodão. Aprisionamo-lo numa redoma de vidro transformada em prisão de guerra para devolvê-lo a seu dono, vai que seja uma das onças dele e pode ser bicho de estimação. Não poço ficar assim de traficante de animais, vou devolver, mas por vias das dúvidas prefiro um endereço daqui da capital. É muito arriscado voltar ao habitat do inimigo. E se encontrarmos outras onças por lá, amigas desta aprisionada? Talvez não tenhamos tanta sorte numa nova luta.

 

 

Ap. de Gyn, GO

 

Delegado Euripedes III

 

EURIPEDES DA SILVAnascido em Colômbia-SP no ano de 1950. Casado com Lourdes C, Silva, tendo quatro filhos adultos e seis netos. Colou grau em 1.979 (Direito pela UFG). Ingressou na Polícia Militar em 1.972, se graduando sargento onde permaneceu por cinco anos. Aprovado para delegado de pol. na Polícia Civil de Goiás, em 83. Como delegado de polícia de carreira, atuou nas cidades de Itumbiara, Goiatuba e Goiânia, chegando a corregedor geral de polícia da SSP. Publicou o romance policial 1-AR-15 - A NOVA LEI, 2-EMBOSCADA – a política a serviço do crime, 3-NOITE MACABRA, 4-GIOVANNA – uma cobrinha muito esperta, 5-OPERAÇAO AVESTRUZ, 6-Saia da Mira e 7-UM ENIGMA DE ONZE DE LETRAS com o pseudônimo Delegado Euripedes III – Se encontra no prelo BIRIBA – Peixinho do rio poluído.  e-mail euripedes3. @ig.com.br . Ouça na Rádio Mil FM (102,9FM) as 7:00H 3ª e 6ª feira Delegacia de Contos, no PROGRAMA RONDA POLICIAL e aos sábados  às 08:00 H na Fonte TV, canal 5 Honda policial na TV

 



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