Lei é para Pobre

Lei é para Pobre Certa feita eu estava delegado de polícia em Goiatuba, ali pelos idos de 1987. O trânsito da cidade estava uma balburdia, com menores passeando nos carrões dos pais até na rua da delegacia...

Certa feita eu estava delegado de polícia em Goiatuba, ali pelos idos de 1987. O trânsito da cidade estava uma balburdia, com menores passeando nos carrões dos pais até na rua da delegacia. As autoridades policiais fizeram uma reunião com os políticos e resolveram dar um basta naquela folga. Começaram as apreensões de veículos irregulares e conduzidos por pessoas inabilitadas. Inicialmente virou uma chiação de gente importante, tudo quanto era menor ao volante tinha um parente, ou amigo político. A coisa parecia que não ia funcionar. Resolvemos pedir reforço ao Juiz da comarca, homem muito íntegro e ele não negou fogo. O magistrado se dispôs a trabalhar pela causa comum de trânsito razoável. Acertou com a polícia sobre todo menor apanhado na direção de veículos devia ser levado ao juiz de menores, ou seja, ele mesmo.

Havia um punhado de artigos do código de menores enferrujando e carecendo de uso imediato, o juiz aplicou principalmente a parte referente a multas, progressivamente, ameaçando confiscar o carro se necessário. Era só apreender e remeter para ele com um breve histórico. Assim foi feito. Aí o trem arrebitou que ficou beleza. As multas da justiça eram pesadas e passaram a intimidar até os ricos da cidade, maiores infratores. Uma sexta-feira os policiais pegaram o Junior, filho de um dos maiores fazendeiros da região, da família dos Portelas, eles donos de mil e tantos alqueires mineiros margeando o rio Meia Ponte, terra de pura cultura e bacurizal sumindo de vista até encostar à cidade de Itumbiara. Bois e mais bois espalhados pelas pastagens com muita região plantada com soja e milho.

Quando Junior chegou á delegacia, o soldado Cardoso o chamou para fazer o Auto de Apreensão, o mocinho bem nascido simplesmente olhou para o soldado e perguntou se ele sabia quem era ele? Obtendo resposta positiva, inclusive com o soldado declinando o nome de seu pai, o garoto responde na bucha:

─ Pois é soldado! Ainda bem que você sabe! Preste atenção porque talvez seja o último ato seu como policial. Este tipo de lei que você quer aplicar foi feito para pobres. Vê se aprende! Vou embora. Nosso advogado resolve isto aí.

 Saiu pisando duro como um vice-rei coroado. O soldado ficou sem ação e foi falar comigo para saber como proceder com aquele garoto de nariz empinado, levantei-me apressado para conversar com o riquinho atrevido, afinal era um VIP (Você é importante para a Polícia), mas ele já estava longe, talvez debaixo da saia da mamãe. Foi feito o auto de apreensão do carro, como se o condutor estivesse ausente.

Passado uma hora mais ou menos, ali pelas cinco da tarde, apareceu um dos administradores das propriedades da família, apressado querendo falar com o delegado. O carro Diplomata apreendido era requisitado pelo patrão para ir a uma reunião política em Morrinhos, onde estaria o governador. Queria resolver o assunto, o mais rápido possível, seu patrão não gostava de demoras. Calmamente abri a gaveta e entreguei-lhe o auto de apreensão, já com os preços calculados sobre as infrações praticadas e informei:

─ O senhor vá ao banco, pague as multas e traga aqui para levar até o Fórum, apanhar a liberação com o juiz de menores.

─ Mas doutor, já são mais de cinco horas. Como o senhor sabe os bancos fecharam as dezesseis e isto já vai longe.

Pois é administrador, banco é coisa de rico, mande abrir e pague, depois venha aqui. Não me aporrinhe!

O emissário dos Portelas não sabia das falas do criador de casos e ficou sem entender o meu mau humor. Mostre-lhe a porta de saída apontando com o dedo em riste. Ele quis falar alguma coisa, mas minha cara feia o inibiu e repeti outra vez, desta feita com voz bem mais alta, para que a soldadesca do lado de fora escutasse...

O caso ficou feio. Era afrontada uma das famílias mais poderosas da região e se não fosse a força do juiz e da maçonaria, eu estaria ferrado, seria transferido naquele fim de semana mesmo, pois o menino mal educado certamente havia envenenado a mãe e o pai. Entretanto, espertamente aleguei que não podia fazer nada, o assunto estava fora de minha alçada: era competência do juiz de menores. O juiz foi comunicado da petulância do riquinho e agiu também com rigor, chamando para si a responsabilidade da retenção do veículo.

O carro foi liberado duas semanas depois, com uma audiência formal, dentro do código de menores com pagamento de pesada multa e um sabão terrível nos pais do menor. Inclusive o magistrado fez questão da presença do pai, a mãe, o menor, o promotor e um advogado. Que saudade da gente goiatubense onde trabalhei três anos e fiz muitas amizades.

Gyn, 29NOV04

Delegado Euripedes IIII

BREVE CURRÍCULO

EURIPEDES DA SILVA nasceu em Colômbia – SP, no mês de abril de 1.950. É casado, tendo quatro filhos adultos e dois netos. Colou grau em 1.979, em direito pela UFG. Ingressou na Polícia Militar em 1.972, se graduando sargento onde permaneceu por cinco anos. Foi aprovado em concurso de provas e títulos para delegado de polícia, na Polícia Civil do Estado de Goiás, em 1.983. Especializou em Direito Administrativo e Constitucional pela Academia de Polícia Civil - UCG.Como delegado de polícia de carreira, atuou nas cidades de Itumbiara, Goiatuba e em Goiânia, nas seguintes delegacias. 5a, 7a, 15a, 20a, DEMA, DECON,HOMICÍDIOS e Corregedoria Geral de Polícia. Publicou o romance policial AR-15 - A NOVA LEI com o pseudônimo DelegadoEuripedes III – Se encontra no prelo Embosca – a política a serviço do crime e Macumba - o terreiro da morte.

CONTATOS telefone 62 3284 72 87

e-mail euripedes3. @ig.com.br



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