Fartura da Roça

Fartura da Roça A ilha Nova Caledônia era uma imensidão de terras no meio do rio Grande entre os Estados de Minas e São Paulo.

A ilha Nova Caledônia era uma imensidão de terras no meio do rio Grande entre os Estados de Minas e São Paulo. Pela conformação geográfica deve ter se formado durante alguma grande enchente diluviana, apartando terras paulistanas, quando um aluvião em borbotões cortou caminho numa grande curva do leito original formando dois braços gigantescos, sendo um lado mais raso e provavelmente o mais jovem. Naquela guinada de cheias o rio embrenhou pela mata virgem se aproximando mais da região onde futuramente seria a cidade de Franca. A nova formação de terras no meio do rio era uma mata fechada onde os bichos mais ariscos escolheram enfurnar. Havia pouca gente para habitar as fazendas, ninguém queria se arriscar naquele lugar cercado de águas por todo lado com muitas feras entocadas. A parte mais estreita dos braços de rio era para o lado mineiro, mas mesmo assim somava quase um quilômetro com muitas corredeiras dificultando a travessia. Notícias fugidias dadas por aventureiros traziam ecos de miados de onças pintadas, rastros de antas enormes e presença de outras feras-do-mato. Era mais de oitenta alqueirões mineiros de pura mata virgem com um pântano no meio, cheio de sucuris e jacarés descomunais.

Durante a Segunda Guerra Mundial o Brasil foi obrigado pelos americanos a entrar no conflito. Os gringos queriam a qualquer custo nossa base militar da Barreira do Inferno no Estado brasileiro de Rio Grande do Norte. Os nacionalistas com medo da influência americana e da sanha deles por guerra, opunham dificuldades. O conflito armado se desenrolava do outro lado do Atlântico tornando aquele lugar estratégico para a travessia do oceano pelos aviões da força aérea de tio San. Vai daí foi afundado um navio brasileiro em águas de nossa costa. A culpa foi colocada nos submarinos alemães. Aquele povo guerreava com muitos países e poderia perfeitamente ter feito a maldade. Até hoje, não ficou provado nada, mas os únicos beneficiados com o feito foram os americanos, conseguindo a adesão imediata do Brasil cedendo graciosamente a base desejada por eles. De quebra levaram nossos pracinhas para lutar nas frentes mais perigosas da guerra, comandados pelos americanos. Saber chantagear a vontade alheia é um privilegio de pouca gente.

Com o ingresso do Brasil na grande Guerra iniciou-se o recrutamento de jovens para combater a sandice de Hitler e Mussolini comandantes das potências do eixo. As famílias das cidades contribuíam com seus jovens para a guerra. Algumas famílias do interior tiveram filhos convocados, literalmente arrastados para as frentes de batalha indo morrer por causas estranhas à vontade popular, em terras distantes. Da maioria, as famílias só receberam comendas de herói e às vezes alguma informação vaga onde foram sepultados em valas comuns no velho mundo. O registro civil e qualquer documento oficial eram pouco usados. Espalhou-se a notícia: qualquer homem acima de vinte e menor de quarenta e cinco anos, registrado civilmente seria convocado pela força expedicionária e levado para a guerra. A recusa era encarada como crime e os voluntários seqüestrados onde fossem encontrados. De repente o sertão bravio passou a ser bem mais ameno e seguro que a guerra alheia... A nova necessidade fez a família do Sr. Norberto, composta de nove filhos com apenas três varões se interessarem pelo sertão da Caledônia. O velho já conhecia aquela ilha. Para lá rumou com os filhos.

 A briga com as onças do lugar era mais fácil. Ganharam a batalha expulsando-as para outra ponta da ilha. Aquelas mais ariscas se mandaram para o continente. Começaram a plantar de tudo na parte mais alta, onde a terra virgem era roxa e de primeira. Como foram pouco ao povoado durante os quatro anos de perigo, acostumaram com o lugar e fizeram progresso. Construíram um grande mangueirão para criar porcos. Separaram uma parte dele, indo até dentro do rio como seva de engorda. Os porcos eram castrados e separados se alimentando com abóbora cosida e milho seco à vontade. Engordavam rapidamente. Sempre tinha estoque de dois ou mais capados prontos para abate. Acontecia de eles ficarem gordos, preguiçosos a ponto de pássaros pretos e outras aves semi-selvagens bicar suas costas furando a pele para comer o toucinho do animal vivo. Era preciso ficar atento para espantar estas aves com pedradas de estilingue. Tiro de arma de fogo custava caro, não devia ser desperdiçado com caça miúda.

Quando os capados grunhiam com mais insistência era preciso acudi-los. O pessoal da sede fazia o socorro mais por piedade que o prejuízo causado. Sildo, amigo da família do Sr. Norberto morava nesta fazenda-ilha. Cismou de providenciar uma arapuca para caçar os pássaros mais folgados. Todo dia havia algum deles preso. Numa noite de lua nova intensa e preguiçosa, seu Norberto foi chamar Sildo pela madrugada. A esta hora ele roncava folgado no segundo sono da noite. Era para olhar alguma coisa atormentando os capados no chiqueiro. A gritaria estava fora da conta. O rapaz se levantou meio tonto de sono e imaginou: passarinho não podia ser... não costumavam voar durante a noite. Talvez fosse alguma jaguatirica, ou onça pintada rondando o chiqueiro. Estava moído do trabalho daquele dia numa competição sem fim com o Zé Preto, batendo arroz na banca, cada um querendo vencer o outro. Era pegar o feixe de arroz e surrar na banca com toda força, um atrás do outro. Quando maneirava o ritmo um pouco o outro estabelecia mais entusiasmo desejoso de vencer.

O descompasso das batidas mandava grãos com muita força no corpo, ferindo-o. Se fraquejasse e pedisse arrego seria motivo de chacota por muito tempo, comentariam pelo resto do tempo do Zé Preto ter tirado-lhe o couro. Não suportaria esta desonra, ainda mais agora quando estava de farol alto para a filha do velho Norberto. O adversário se gabava do costume em tirar o couro dos outros, mas nunca alguém tirou o seu. Não podia dar mole. Custou a sair daqueles pesadelos, mas finalmente despertou, pegou a carabina papo amarelo encostada no canto do quarto e foi com ela para o lado do chiqueiro. Para adequar o bebedouro d'água dos porcos e facilitar a limpeza fizeram a cerca de pau a pique indo rio adentro. Cercando uma parte de água corrente. Ali quando o sol estava quente os porcos ficavam na maior mordomia. O piso fora calçado com pedras tapiocangas e não atolava. Na quadra das cheias do ano, o rio Grande recebera um pouco mais de água, pelas tribuzanas nos seus cabeços, lá para os lados de onde vinha do leste. A cerca do fundo do chiqueiro estava submersa. Os capados de meia ceva estavam ouriçados forçando a cerca do lado de cima do cercado, onde havia uma porteirinha de acesso. Pareciam assustados com alguma coisa.

Dentro do chiqueiro, naquela parte mais alta havia uma cobertura feita com folhas de bacuris. Era para os animais se abrigar das chuvas e do sol. Sildo chegou por trás dela com cuidado. Alguma onça podia entocar por ali, rondando o mangueiro, assustando as criações. O luar era intenso, mas estava embaçado em poucas nuvens de fumaça, dava para divisar coisas maiores em movimento em quaisquer direções e viu um capado sendo estraçalhado, com muito sangue escorrendo pelas pedras na direção d'água. O animal ainda parecia vivo e sofrendo demais com partes dos quartos traseiros dilacerados. Um jacaré de mais de quatro metros comia-o vorazmente. A bocarra do bruto parecia uma caverna sinistra quando abria e mordia a parte de trás do porco. Ele nem gritava mais, apenas gemia, talvez estivesse nos extremos da vida. Sildo despertou de vez daquela leseira de sono. Fixou o olhar no monstro comendo o animal doméstico. Manobrou a papo amarelo rapidamente levando a bala 44 para o ponto de tiro. O jacaré nem ligou para o barulho, tão entretido estava na degustação do jantar. Firmou a culatra da arma no ombro, se apoiou na cabeça dos paus da cerca fazendo mira.

Precisava ser um tiro certeiro na cabeça, único lugar mortal daquela fera. A pipoca ecoou quebrando o silêncio da noite, rebimbando nos barrancos do rio do outro lado, em Minas. O tiro de calibre quarenta e quatro é potente o bastante para derrubar um touro no sopapo. O jacaré foi ferido de morte. Deu rabanadas fortes acertando a cerca quebrando parte dela. Tentou rastejar para a segurança das águas, mas suas forças iam morrendo rapidamente. A pata dianteira dele era do tamanho da pata dum touro e foi ficando tesa até parar de movimentar de vez. A fera emitiu uma tremedeira na cauda indicando perda das forças. O capado ferido de morte respirava sofregamente. Não tinha a menor chance de vida. Seu fato estava rasgado e esparramado nas pedras. Apenas um fiapo de vida o mantinha. Até mesmo para um animal era sofrimento demais. Merecia um fim mais rápido naquele martírio. O sertanejo manobrou a arma e apontou dando novo tiro. Viu quando a cabeça do porco deu um baque para trás e chocalhou o corpo pela ultima vez. Era o tiro de misericórdia aliviando o sofrimento. O jacaré ainda tremulava com a cabeça enterrada n'água tingida com o seu sangue. Seu Norberto se aproximou de Sildo munido de uma faca afiada. Perguntou-lhe se seria arriscado ir onde o jacaré agonizava.

Queria aproveitar parte da carcaça dele para fazer umas mantas de carne. Os dois saltaram juntos a cerca do chiqueiro, desceram com cuidado para o lado da fera. Sildo pegou a faca, para cortar a cauda do bicho, única parte aproveitada daquela caça. Fincou a lamina de ponta fina atrás das patas traseiras, houve um movimento inesperado, com tal violência acertando Sildo e Norberto na altura das canelas, derrubando-os longe. A faca ficou fincada na couraça do bicho. Não houve meios (coragem) para retirá-la. Ficaria por lá até o dia seguinte quando aproveitariam os restos do capado e cortariam o rabo do jacaré. O sol preguiçava em seu leito de rei quando se levantaram e foram lá buscar o que fosse possível aproveitar tanto do porco quanto do jacaré. A carne do réptil branca como a de peixe foi trazida para a cozinha. Começaram a tratá-la, jogando punhados de sal grosso de conservar, as mantas se contraiam como se estivessem vivas. O restante do jacaré foi jogado no rio juntamente com partes mascadas do capado. Alimentaria os peixes rio abaixo durante um bom tempo. Era carcaça para mais de cinqüenta arrobas. A cadeia alimentar precisava ser exercitada vez por outra ajudando a natureza.

 

Delegado Euripedes III

Gyn, GO 18JUL02     

 

BREVE CURRÍCULO

EURIPEDES DA SILVA – nascido em Colômbia-SP no ano de 1950. Casado com Lourdes C Silva, tendo quatro filhos adultos e dois netos. Colou grau em 1.979, em direito pela UFG. Ingressou na Polícia Militar em 1.972, se graduando sargento onde permaneceu por cinco anos. Aprovado para del. de pol., na Polícia Civil de Goiás, em 83. Como delegado de polícia de carreira, atuou nas cidades de Itumbiara, Goiatuba e Goiânia, Publicou o romance policial AR-15 - A NOVA LEI com o pseudônimo Delegado Euripedes III – Se encontra no prelo Embosca – a política a serviço do crime e Macumba - o terreiro da morte. CONTATOS telefone 62 284 72 87

Veja na TV Goiânia-canal 11, aos sábados ás 09,30 hs todo sábado o quadro Delegacia de Contos no PROGRAMA SEGURANÇA EM  AÇÀO. Ouça na Rádio Mil FM (1.029FM) as 7:00 hs 3ª e 6ª feira Del. de Contos, no Programa RONDA POLICIAL.

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E-mail  euripedes3@ig.com.br



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