Crônicas da Campininha - José Mendonça Teles

Crônicas da Campininha - José Mendonça Teles Vou carregando comigo relembranças de Goiânia. Início da década de sessenta...

Geraldinho & Cia

Vou carregando comigo relembranças de Goiânia.  Início da década de sessenta.   A Goiânia do Lanche Americano, do footing da Rua 8, dos fusquinhas envenenados, dos bailes do DCE, das namoradinhas ternos do Lyceu e as vespinhas velozes, levando emoções noturnas pelos cerradões que se estendiam pelos setores Oeste e Sul.

Os reflexos de Brasília já se faziam notar na cidade.  O crescimento da população,  o aumento dos automóveis e a verticalização de Goiânia, com os prédios de apartamento surgindo aqui, ali, ainda tímidos, mas mostrando a cara de uma nova Goiânia, que ia derrubando os sobradinhos históricos, os bangalôs, para dar lugar aos arranha-céus. O goianiense, até então livre e sem relógio no pulso (ou na algibeira), contando e ouvindo causos na porta do Mercado Central, agora se apressa, põe-se a correr, sobe elevador e se envolve nos problemas existenciais e na solidão características dos apartamentos.

Prefiro a década anterior.  A década de cinquenta.  Era aquele lirismo.  Era comum a gente passar a noite num desses botecos da esquina, evocando a mulher amada, cantando músicas de Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo e até de Vicente Celestino.  “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e me abandonou”.  A serenata tomava conta da Cidade.  Morando no bairro de Campinas, vim várias vezes a Goiânia, à noite, no “pé-dois”, para cantar na janela de minha amada.  E cantava “A Deusa do Asfalto”, eu, que morava na poeira!

Outra coisa interessante:  na década de cinquenta, não havia tóxicos nem homossexualismo nem outras transas que fazem erótica  a Goiânia de hoje.  A boemia corria solta pelas avenidas Bahia e Amazonas, atual Anhanguera, no Bairro de Campinas.  Lembro-me do alvoroço que provocou a presença de Geraldinho, o primeiro bicha oficial que chegou a Campinas.  Ele andava pelas ruas requebrando acintosamente, provocando a meninada que lhe jogava escárnios e gozações.  As mulheres rezavam o Creio-em-Deus-Padre e os homens sisudos ameaçavam chamar a lei.

Certa feita, apresentava-se no palco do Cine Campinas uma dançarina de rumba da escola de Virgínia Lane, rumbeira famosa.  O Cine Campinas lotado e a artista requebrando ao som da música em agitação. A certa altura, ela vira-se para o público e pergunta se havia alguém que queria dançar com ela. O público começou a gritar, numa única voz: Geraldinho! Geraldinho!  E o Geraldinho subiu no palco e ficou timidamente olhando para a artista, que requebrava para ele, instigando-o.  Em dado momento, Geraldinho eufórico vira o traseiro para o público e o ritima. O público vai às gargalhadas, e a rumbeira, decepcionada com o atrevimento de Geraldinho, que lhe arrebatou os aplausos, procurou encerrar mais cedo o espetáculo.

Disputando a preferência de Geraldinho, existia em Goiânia o Silas, um crioulo que fazia “ponto” no “curral das éguas”, conhecido lenocínio existente abaixo do Mercado Central.  Silas pintava e bordava.  Naquela quadra, Goiânia e Campinas viviam dois mundos à parte. Campinas carregava as honras de ter cedido as terras para a edificação da nova Capital e, por isso, a sua sociedade era fechada, as famílias tradicionais, extremamente religiosas. E a nova geração de Goiânia procurava ridicularizar os campineiros, daí as desavenças levadas até para o campo esportivo, onde o Atlético desafiava o time oficial de Goiânia, oficial porque vários jogadores do carijó trabalhavam no Centro Telefônico.

Pois bem,  o moço goianiense, quando chegava no fim de semana, dizia para os amigos, mostrando machismo:

             - Hoje é sábado, vou a Campinas trocar óleo!

Sobre Silas, diziam que a sua escolinha fora tão dinâmica, que conseguiu diminuir o número de goianienses que baixavam sábado em Campinas.

 

* Crônica publicada no livro “Crônicas da Campininha 3ª edição” , de José Mendonça Teles.  

José Mendonça Teles, nascido em 25 de Março de 1936 é  historiador, contista, cronista, poeta, ensaísta e autor de mais de 30 obras. Foi presidente da Academia Goiana de Letras, durante 10 anos, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás de 1992 a 2005, e ex-diretor geral do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central, da Sociedade Goiana de Cultura. Entre as condecorações, recebeu as Medalhas João Ribeiro e Assis Chateaubriand, da Academia Brasileira de Letras e Medalha Tiradentes, do Governo de Goiás.



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