BOIÚNA

BOIÚNA

 

Nos anos sessenta o rio Araguaia teve uma cheia histórica com uma chuvarada sem fim caindo nos cabeços do rio e nos afluentes para todos os lados. O crescente de águas foi tomando a largueza do mundo e nalguns lugares onde o barranco era mais baixo a água se espalhou a sumir de vistas. O emburramento das águas demorou mais de três meses a ponto da fauna aquática tomar conta de muitas fazendas e até povoados. Naquela ocasião os índios da ilha do Bananal quase desapareceram, porque ficaram espremidos em duas nesguinhas de terra distante uma da outra. Muitos índios aculturados foram bater nas cidades alarmados com as histórias de que o sertão ia virar mar. Contavam causos com muitas provas sobre um tal de Boiúna, uma cobra imensa capaz de engolir cinco búfalos erados numa única refeição. 

Vai daí que naquele ano o João Churrasqueiro morava nas imediações de Aruanã e viu o povoado mergulhar no rio e ficar submerso seis meses. O volume de água empurrava para traz as águas do rio Vermelho e ele precisou sair de canoa a remo para fugir da enchente e avisou aos amigos empoleirados no Morro do Chapéu da sua intenção de virar retirante das cheias indo para os lados de Itaberaí. Falaram dos perigos de romper o mar de água inundando as estradas, os pastos e teria de enfrentar muitas corredeiras onde era pasto e nisto poderia encontrar com alguma Boiúna e a coisa não ia dar certo. João Churrasqueiro era um cara destemido e não deu ouvido aos mais velhos, pegou seus trens: uma porca parida com onze leitões, cinco cachos de bananas de vez um tamborete, tralha de dormir, uns cacarecos de cozinha e zarpou no cantar da juriti de angico. 

Navegou no remo um dia até escurecer de tudo e, dormiu atracado numa aroeira com a copada boiando e pela madrugada retomou a jornada. Ao meio dia, viajando na direção sul, avistou uma corredeira de relativa dificuldade, mas pela conformação dos tombos d'água dava para romper de vau puxando a canoa.  Pulou n'água no vau de metro e se alarmou ao ver que a corredeira era uma enorme Boiúna atravessada brincando de tobogã, e se viu sem tempo para fugir, tinha de arrostar o perigo e pulou por cima da cobra, fazendo-lhe cócegas. A anaconda dos índios não perdeu tempo e devorou o barqueiro, o barco, os porcos as bananas e o tamborete. Vomitou apenas os cacarecos porque eram metal. Passado três dias uns caçadores de Boiúna avistaram aquela cobrona esquecida do mundo, esquentando sol, fazendo o quilo da boa refeição. Depois bolando estratégias e ataque, lançaram-se sobre o monstro e conseguiram abatê-la. Duas lanças tipo São Jorge caçador de dragão, estavam cravadas no mesmo ponto do ouvido. O couro da cobrona valia uma nota preta, com aplicação no fabrico de barcaças no transporte de cabotagem fluvial. 

Ao abrir a barriga da enorme Boiúna, lá encontraram o João Churrasqueiro, tranquilamente esperando salvamento, confiante nos voluntários de caça de boiuna.  João era tranqüilo e assim permanecia lá no papo da cobra, sentado no tamborete, tratando dos porcos com as bananas.  Os leitões na maior farra brincando de escorregar fuçando as costelas do bicho descomunal. João agradeceu aos caçadores pelo resgate, dando-lhes dois leitões. Botou novamente sua canoa na direção de Itaberaí e chegou à cidade em uma semana, mas ficou pouco tempo, apenas dois meses. As águas ameaçavam a cidade e teve medo de topar outra cobra daquela. Mal se recuperou da grande viagem levantou ancora e foi aportar em Goiânia. Aqui trabalhou como açougueiro, carroceiro, pedreiro adotando a cidade. Muitos anos depois vizinho dos oitenta anos se aposentou do trabalho pesado e passou a se divertir como churrasqueiro de rua. Montou banca com boa freguesia na Av. Zoroastro Artiaga, em frente à loja Caroline Auto Peças do meu amigo Silas. Tem ótima freguesia, principalmente de suas histórias sobre boiúna.

Duvidou? Vai lá ao crepuscular do dia quando ele começa sua função, tome uma cachacinha de engenho, sirva-se do melhor churrasco da região e pode conferir uma cicatriz feia na perna esquerda do churrasqueiro, lembrança daquele dia de virar comida de cobra, fato para esquecer. Mas cuidado se você falar em Boiúna, e capaz dele botá-lo para correr na ponta duma espada que chama de faca. Melhor não arriscar. 

 

Ap. de Gyn, GO, 03FEV12

Delegado Eurípedes III

 

BREVE CURRÍCULO

 

EURIPEDES DA SILVA nasceu em Colômbia –SP, em abril de 50, casado, tendo quatro filhos adultos e oito netos. Colou grau em 1.979, em direito pela UFG. Ingressou na Polícia Militar em 1.972, se graduando sargento. Foi aprovado em concurso para delegado de polícia, na Polícia Civil do Estado de Goiás, em 1.983. Especializou em Direito Administrativo e Constitucional pela Academia de Polícia Civil- UCG. Atuou nas cidades de Itumbiara, Goiatuba, em Goiânia, Corregedoria Geral de Polícia. Publicou os romances policiais AR-15  A NOVA LEI, Emboscada, Macumba, e outros  com o pseudônimo Delegado Euripedes III. Está no prelo para publicação ainda este ano os romances policiais “Míssil e Vovô cadê a onça”. E-mail euripedes3@ig.com.br Veja no canal 5 fonte TV aos sábados ás 08:00H o Programa Ronda Policial –Quadro Delegacia de Contos.Ouça na  rádio MIL e noventa AM  as 6.00as da manhã, o quadro Delegacia de Contos

 



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