Aparelho de Surdez

Aparelho de Surdez O rio dos Bois divide Goiatuba e Joviana, serrado afora remansando aqui e acolá fazendo uma curva fechada na fazenda do Euripedes Junqueira já de saída para ...

O rio dos Bois divide Goiatuba e Joviana, serrado afora remansando aqui e acolá fazendo uma curva fechada na fazenda do Euripedes Junqueira já de saída para Itumbiara, donde endireita para correr o altiplano e receber as águas do Turvo. Depois de misturadas, as águas desembestam açoitando galhadas de ingazeiros e figueiras, derrubando frutos e pequenos insetos n’água onde piaus e pacus ariscam folgados de anzol e rede. Silso e Pedrão vinham barranqueando com suas varinhas de bambu batendo aqui e acolá. Vez por outra arrancavam algum piau de palmo. Os peixes estavam espertos pra chuchu dando muito trabalho. Arrebentavam linha e quebravam anzol a toda hora. Chegaram ao poção Remansado bem em frente à foz do Turvo encontrando um pescador cinqüentão com tralha bonita, molinete novo, vara importada, bota de pescaria, colete salva vidas, etc. típico pescador de cidade, só indo ao rio para esnobar.

A caixa de “ferramentas” dele, aberta ao lado parecia armário de loja, com tudo imaginado de pescaria. Silso viu de relance umas peças brilhosas e imaginou tratar-se de engodos importados. Calados se aproximaram do pescador bem equipado e quando ele os notou fez cumprimento com aceno de boné. E só. Pedrão percebeu nele um problema de audição: um aparelho para surdez na cor da pele envolvendo-lhe a orelha. Era discreto, coisa cara, mas fazia reflexos com o repique do sol vespertino. Pedro na surdina apontou o pescador rico denunciando o aparelho ao Silso. O outro sacou o lance e iniciaram a trama, falando de peixes enormes pulando acima do remansado. Seriam facilmente pescados com molinete, como o fizera dois dias antes. O ancião os olhou de esguelha, com o desdém próprio dos esnobes. Eram pescadores pobres, de barranco, de varas de bambu, de capanga a tiracolo e possivelmente nem tinham carro. Estando de lado escutou-lhes o papo vigiando o assunto de soslaio, como quem não quisesse nada com o papo daquela gente miúda de posses.

Os dois traquinas faziam o jogo dele e ao perceberem-no ligado, incrementam a história contada e encenada. Pedrão falou da posição de jogar a linha de molinete, mas fez apenas gestos com a boca como se falasse. O velho engodou imaginando falhas de seu aparelho e bateu-lhe com a ponta do indicador querendo sanar o mau contato. Pedrão soltou a voz e o homem pensou ter consertado. Silso entrou no comentário sobre o tamanho do peixe, porém quando falaria do tipo de isca, entrou naquela mascação sem fala. O velho novamente bateu no aparelho... resolveu!

Nenhum dos dois olhava diretamente o iludido, como se não sacassem sua agonia. Assim os dois seguiram no papo animado cheio de falhas e de risos e o velho sem desconfiar. Pedro piscou o olho contrário em relação ao rico, encenando um peixão mordendo a isca, era só fisgar. Silso desviou o papo para umas gatinhas trazidas ao local há um mês. O assunto ferveu! O aparelho do velho mixou! O rico olhou os capiaus fazendo gestos pornográficos, gritando gozo de prazer. O infeliz ficava vermelho-ira.

Aí já era demais! Olhou os recém chegados: faziam gestos largos, riam as pampas como se estivessem na maior cavaqueira. Fingiam não perceber-lhe o interesse. As varas estavam levantadas, mostrando a falta de tempo para cuidar delas no momento. O aparelho de surdez não funcionava, exatamente naquela hora “H”, justo no desenrolar “do rala e rola”. Não podia ser: apertou com força, cutucou, futricou o escutador quase se machucando e nada. Finalmente o arrancou num ataque de insanidade, jogando-o no chão e sapateou em cima. Disse um monte de desaforos contra aquela marca. Pedrão e Silso pararam o assunto assustados, como se só agora houvessem percebido-lhe a fúria. Saíram de fininho, no maior papo mascado rindo como se estivessem falando quase gritado. Desceram mais acompanhando a curva do rio. Embiraram nas ramagens dum assa-peixe, depois d’uma moita de bambu e rolaram no riso de estralar. Ainda bem que nunca mais viram aquele esnobe novo rico metido a besta. Ele poderia desconfiar e voltar armado!

Pois é, sarava!



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