GATO SELVAGEM – ONÇA

 GATO SELVAGEM – ONÇA

 

Cidinho nasceu em Mararosa-GO e lá viveu até os cinqüenta anos, sempre trabalhando em fazenda como lavador ou vaqueiro. Na sua juventude se enrolou com uns baianos vindos a pé da Bahia e adotou os hábitos deles de caçadores. Na região havia muitos bichos selvagens e sempre havia carne silvestre na nessa do almoço. Os sertanejos da caatinga eram uns cabras arretados muito porretas, só caçavam de facão e à pé. Saiam de três ou quatro para a capoeira e cercavam os bichos, qualquer um até onça só voltando pro rancho com a caça na capanga ou na manguara de ombro. Com o tempo se apartou dos amigos, mas continuou na fazenda Barreirão. Por ter andado com eles herdou a fama de matador de onças e outras feras. Porém sozinho não era ninguém, nunca tinha dado um tiro nem em tatu, vangloriava da fama alheia por companheirismo. Ter andando com os baianos era verdade, entretanto sempre na retaguarda receoso com onças, canguçus, catetos e até tatu canastra.

Estava beirando os cinqüenta anos quando foi visitar um irmão roceiro pras bandas do ribeirão Formiga e lá havia muitas notícias de canguçus pequenas atacando as galinhas. Quando chegou o mano se alegrou com a possível ajuda familiar e o convidou a uma corrida de onça. Ele como companheiro de caçadas dos baianos devia ter experiência para ajudar a matar a fera. O irmão, Dezinho, deu-lhe uma espingarda calibre 36 e foram pro mato caçar a tal canguçu. No caminho Cidinho se cansou e parou para descansar de tanta andança sem futuro atrás de onça, e sentou-se numa tora caída, enquanto enrolava um cigarro artesanal. Ficou entretido longamente fabricando o palheiro e quando foi ligar o bicho na binga levantou as vistas para o rumo dum charravascal feio há poucos metros dele.

Aí viu a coisa mais esquisita já imaginada: uma onça arreganhando os dentes pr’ele. Sua fama de caçador de onça sumiu do mapa e se viu na tentativa de gritar por socorro, mas não deu conta, sua voz morria de medo na garganta também com medo de ganhar o mundo e a onça pegá-la. Saiu apenas um gemido falho, chochado no espanto: biiicho... A espingarda estava meio longe, meio perto, mas não teve ânimo de aluir na direção da ferramenta defuntista. Com o segundo rosnado da onça, foi espantado suas ultimas reservas de coragem e caiu de costa no tronco ficando com ele servindo-lhe de travesseiro bundal para “um bunda mole” como era. O irmão notou-lhe a falta e resolveu procurá-lo, chamando-o diversas vezes, mas nada. Foram atrás pensando na onça ter-lhe dado cabo. Quando o avistaram caído, apenas as pernas apareciam travadas no tronco. O irmão pensou dele ferido e correu para socorrê-lo vendo-o desmaiado. 

Jogaram-lhe água de cabaça na cara revivendo-o. Ao voltar deparou com uns remendos na calça do irmão e eram iguaiszinhos as pintas da onça. Desmaiou de novo e foi socorrido aos gritos dos companheiros de frouxo, frouxo. Conseguiram ligá-lo de novo. O sujeito caçador de onça acordou e a primeira providencia foi apanhar o cigarro no chão, queimado em mais da metade. Tirou umas baforadas e contou sobre a fera lho pageando para almoço. O companheiro Severino foi olhar os rastros da fera, duvidando que fosse onça, se fosse teria atacado, não deixando de comer pelo menos parte de seu rosto. Os rastros eram dum gato do mato, mais ou menos do tamanho de nossos gatos domésticos, apenas eram selvagens, mas nunca atacaram gente. 

Cobriram Cidinho de gozação a ponto dele desejar voltar para casa e dali ganhar o mundo. No mesmo dia arrumou sua mudança e veio parar em Goiânia, onde está até hoje. Gosta de passear na cidade grande, mas nas proximidades do zoológico, não passa nem de avião. Alega que o cheiro das onças presas lá dentro o deixa enjoado. 

Pois é.

 

Apa de Goiânia, GO, 03MAR12

Delegado Eurípedes III

BREVE CURRÍCULO

EURIPEDES DA SILVA nasceu em Colômbia – SP, no mês de abril de 1.950. Colou grau em 1.979, em direito pela UFG. Ingressou na Polícia Militar em 1.972, se graduando sargento onde permaneceu por cinco anos. Foi aprovado em concurso de provas e títulos para delegado de polícia, na Polícia Civil do Estado de Goiás, em 1.983. Especializou em Direito Administrativo e Constitucional pela Academia de Polícia Civil - UCG. Como delegado de polícia de carreira, atuou nas cidades de Itumbiara, Goiatuba e em Goiânia, nas seguintes delegacias. 5a, 7a, 15a, 20a, DEMA, DECON, HOMICÍDIOS e Corregedoria Geral de Polícia. Publicou o romance policial AR-15 - A NOVA LEI e mais oito obras. CONTATOS telefone 62 3230 72 87 e-mail euripedes3@ig.com. Br 

  

 

 



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